Livro

Para escrever um único verso,
é preciso ter visto muitas cidades, homens e coisas,
é preciso conhecer os animais,
é preciso sentir como voam os pássaros
e saber que movimento fazem as florzinhas
quando se abrem pela manhã
(Rainer Maria Rilke)

A oportunidade de publicar Buquê aconteceu em 2006. Porém o que publicar em Buquê? O punhado de poemas que eu tinha vinha sendo construído ao longo de 15 anos até aquele momento do convite. Escrevia por inspiração; escrevia para os processos criativos na formação do contato improvisação; escrevia porque as aulas de dança contemporânea me inspiravam; escrevia porque os amigos coreógrafos, quando queriam colocar textos nos espetáculos, me chamavam; escrevia por diversão.

Percebo que o tempo que esses escritos-poéticos levaram para surgir foi praticamente o mesmo do surgimento, como ações artísticas, do dançar falando, do Ações da Fala e do Margaridas Dança. De alguma maneira, essas escritas fazem parte da história pessoal de dança. Não paro de dançar para escrever; não escrevo para dançar.

Existia um arquivo de Word no computador com o nome “escrevendo”. Um arquivo em processo. Um arquivo que ia deixando rastro ao longo dos anos e da experiência de vida. Sempre preenchido com as produções escritas do momento. A vida foi a escola da escrita. Sim, fiz Letras, mas a academia entregou-me o meio – a técnica. O fim foi dado pelos acontecimentos, que me fizeram essa bailarina-escritora. Isso lembra-me o romance Orlando, de Virginia Woolf, em que o personagem carrega amarrado no seu corpo o poema “O Carvalho”, que vai sendo escrito ao longo de sua vida. Lembrando que a personagem atravessa séculos da sua existência. Carregar os escritos – as palavras têm peso, medida, são concretas
O livro é um objeto material e isso me assustava. É para sempre. Diferentemente da dança, que tem em sua essência aparecer e desaparecer. E quando aparece de novo é outro momento dessa mesma expressão. Nesse tempo de construção do livro, estava também, paralelamente ao trabalho do Margaridas Dança, na dupla de pequena arte Flor de Insensatez, em que fazíamos performances ao vivo em saraus. Essa experiência de participar mais do lado do letristas, me dava ganas necessárias para escrever, porque no sarau os poemas, quando soltos no ar, mostram a sua forma efêmera, imaterial. Então essa via do material-imaterial-material quer dizer escrever o poema, soltá-lo ou ouvi-lo e depois escrever. Parecia uma técnica que a experiência de participar dos saraus, ativa ou passivamente, me proporcionava. Ora estava performando os poemas; ora estava assistindo poetas soltarem seus poemas no espaço. Esse ambiente me proporcionou escrever poemas e reunir os que eu já havia escrito.

Mas o livro é um objeto, é tridimensional, é ir para o território do design, tem um formato, é necessário que ele seja compatível com a informação que o contém, é imprescindível considerar sua estética. Livros são objetos táteis – manuais. Segundo Marilena Chauí (1988), encontramos a sensorialidade para esse momento de segurar o livro:

Percepção vem de percepio que se origina em capio – agarrar, prender, tomar com ou nas mãos, empreender, receber, suportar. Parece, assim, enraizar-se no tato e no movimento, não sendo casual que as teorias do conhecimento sempre a considerassem uma ação-paixão por contato: os sentidos precisam ser tocados (pela luz, pelo som, pelo odor, pelo sabor) para sentir.

O livro é para ser sentido. E a minha sensação, a minha intuição era que a produção desse livro seria mais que letra preta em papel branco. Seria um “livro de artista”, onde outras linguagens interpenetrariam. Não o livro de artista que nas artes plásticas se utiliza de encontros de materiais. “Livro de artista” que se inicia em Mallarmé, no final do século XIX, passa pelo concretismo e pelo neoconcretismo, por Duchamp, com a obra A casa verde, e chega ao final da década de 1970. Livros habitados por processos de criação, materiais agregados a objetos, letras e imagens. Eu queria agregar imagem e dança. Greimas (2002) menciona Merleau-Ponty, com a Fenomenologia da Percepção, na procura de um conceito sobre o corpo sensível e conhecedor. Soma que é corpo e se amalgama com Physis, a matéria. Um livro que sugerisse dançar.

Livro vem da família do literário, mas eu não sou da família do cânone, eu sou da família da margem, que pode passear em um lago sem tanto apelo mercadológico. É literário. Mas não é estruturado para uma feição racional, canônica, para ganhar prêmios literários. A intenção desse livro era e é o leitor ser pego pela beleza das palavras, das imagens, das sensações que aparecem e desaparecem; era para o leitor se sentir um mágico. Bem exemplifica Barthes quando fala do texto modernista em comparação ao texto realista.

Colhido nessa dança exuberante da linguagem, deliciando-se com a tessitura das palavras em si, o leitor conhece menos os prazeres bastante objetivos de construir um sistema coerente de combinar os elementos textuais com maestria para criar um eu unitário, do que as emoções masoquistas dos sentimentos fragmentados e dispersos pelos emaranhados da própria obra. Assim a leitura parece menos um laboratório e mais um boudoir

Sentir o que o texto traz e não ler apenas para decodificar, para fazer sentido lógico. Quando abrimos um livro, podemos nos mover dentro dele, e cada vez que avançamos vamos abrindo portas que nos levam a outras entradas de sensações e de sentidos. O poema cruzado com a imagem para tornar um texto-imagético. Como comentei em “Dançando na pós-modernidade”, essa possibilidade do inscrito se juntar com a imagem, não como uma legenda do escrito-poético, mas como uma composição, uma ligação entre imagem e poema. Já que os escritos que compõem o livro são de vários gêneros – como poema, haicais, conto, roteiro de cinema, prosa poética, cartas, bilhetes e até descrições de coreografias em notas de rodapé –, o leitor, além de ler, pode até dançar.

Como seria organizar essa informação? A primeira ideia foi comum, usar a cronologia, publicar os poemas na ordem em que foram criados, uma saída racional, sem propósito, sem sutileza. A poesia é imponderável, feita de matéria aérea. Bachelard, quando trata dos poemas de Shelley, diz que o importante não é a materialidade contida nas imagens suscitadas pelos poemas, mas, sim, que o imprescindível é esse movimento imaginário que fazemos quando nos empreendemos na leitura de um poema. A forma e a linearidade seriam uma violência aos poemas na sua essência de inspiração. Inspirar e expirar e na próxima exalação sentir um cheiro. Disso, surgiu a ideia dos aromas. Sim, iria reunir os poemas em quatro aromas, não aromas de cheiro de flores, mas aromas imaginários: “Aroma de Gengibre”, “Aroma de Brunir”, “Aroma de Haiku” e “Aroma de Dança”.

Para abrir cada aroma escolhi um andamento, como um andamento musical que é necessário saber no início da partitura, para criar o clima da música, como os indianos diriam, a rasa, o estado que se deseja alcançar ao ouvir a música: alegria, tristeza, energia.
Os poemas de “Aroma de Gengibre” são eróticos. Daí o nome do aroma e o seu andamento é verité. Qual é a verdade do erotismo de cada um? Os poemas que compõem gengibre têm essa coloração sutil e incomum do erotismo; o erotismo verdadeiro de cada um.

Já em “Aroma de Brunir”, a reunião se deu pelos primeiros escritos, escrita que ainda precisava achar seu brilho próprio, sua qualidade mais lauriana. Na tentativa de encontrar um estilo próprio, nos escritos de Brunir ainda estão presentes as referências de outros escritores como Virginia Woolf, Lygia Fagundes Telles, Elisa Lucinda, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, entre outros. Para essa parte, o andamento escolhido foi intimité. Inspirações guardadas na intimidade da minha leitura ou em imagens. Escritos de casa, para as pessoas mais íntimas.

Um ano antes de publicar o livro, participei de uma oficina em São Paulo, no extinto Estúdio Nova Dança, com Luciana Bortoletto, de Dança Haicai. Durante a oficina, éramos instigados a escrever e a dançar nossos haicais, os dos colegas e os autores do cânone japonês. Foi uma experiência riquíssima porque, enquanto estive lá, tive a possibilidade de treinar a escritura, fazer um punhado de haicais e dançá-los. Eu tinha clareza do movimento instantâneo que o poema e a dança produziam. Quase uma fotografia em movimento, um fragmento de vídeo. Aparecer e desaparecer. Esse foi o aroma de Haiku que andava anschauung (intuição).

Para fechar, “Aroma de Dança”, andando em movimento changement (mudança). Aqui há um trocadilho, porque apesar da palavra francesa significar mudança também é um passo de balé clássico bem popular feito em aulas, que é pular trocando as pernas. Esse aroma reuniu todos os textos participantes de performances e espetáculos. E alguns textos ou poemas são acrescidos de uma nota de rodapé, sugerindo uma improvisação, ou uma coreografia, realizada em uma performance.
Ao amarrar esses quatro montes em aromas, pesquisando, pensei em dar ao livro o nome buquê, porém tal denominação o ligaria ao Margaridas Dança, portanto, às flores, não era essa a intenção. Então, a solução para isso foi o cuidado com a identidade visual, que não remeteria à flor mas ao ar, ao cheiro, a fumaças. O título sintetizaria esse apanhado que estrutura o livro nessa composição de quatro aromas. Não como um ramalhete de flores, a primeira ideia que chega ao leitor, mas como uma combinação de aromas poéticos, similar a uma composição aromática de vinhos. Daí a cor da capa e das letras do título.

Para cuidar da identidade visual, fiz uma parceria com a designer Erika Pacheco, que já cuidava da identidade visual do Margaridas Dança e da “salamover”. Erika estava em Berlim cumprindo seu mestrado e se dedicou a fazer tanto as letras quanto o visual do livro, com a feição de fumaça, de aroma. O trabalho todo foi feito a distância, por meio da internet, via Skype e correio eletrônico. Preocupava-me a estética do livro, pois queria que fosse um livro que levasse as pessoas a pegá-lo na estante por sua beleza. Assim, escolhi o formato quadrado, que se difere do formato dos livros retangulares, dando mais charme ao livro, tornando-o mais feminino. E as letras foram cuidadas com o intuito de serem para desaparecer – como fumaças.

As ilustrações foram feitas a partir de uma técnica chamada “foto-colagem digital”, em que fotografias digitais são trabalhadas digitalmente, perdendo seu caráter fotográfico em detrimento de um caráter ilustrativo, aproximando-se mais da ilustração do que da fotografia propriamente dita. “Cada imagem foi trabalhada buscando traduzir visualmente a poesia, que, para mim, é bastante feminina, fluida. Fotografias que se tornam grafismos para ilustrar palavras feitas de poesia”, diz Erika sobre seu trabalho.

O lançamento aconteceu em Brasília e no Rio de Janeiro. Houve um sarau de lançamento, em Brasília, com a participação de bailarinos, coreógrafos, performers, escritores e músicos no Senhoritas Café, de Renato Fino, escritor e músico, que foi inspiração de um dos poemas de Buquê. Participaram do evento: Hilan Bensusan, Cleani Marques, Édi Oliveira, Lívia Frazão, Micheline Santiago, Shirley Farias, Liana Gesteira, Alexandre Nas, Consuelo Bernardo, Monica Martins, Patricia Finageiv, Ellen Gonsioroski, Isadora Grespan, Cinthia Nepomuceno, Gisel Carriconde Azevedo, Waleska Reuter, Teldo, Cacá e Edimar (Tribo das Artes – Taguatinga), Celina, Karina, Caio Lyrio, Nicolas Behr, Renato Fino e o DJ Phil Jones. Foi uma grande festa, com a venda de 250 exemplares. E no Rio de Janeiro, foi na Biblioteca Alexandre Caminha, no Leblon, em ambiente mais intimista, todavia com a presença de escritores, em sua maioria, que compareceram e levaram mais de duzentos Buquês.

Querendo adquirir o livro, envie e-mail para buquelauravirginia@gmail.com.
O valor é de trinta reais mais o frete, se for Brasília, combinamos um local de entrega.

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2 opiniões sobre “Livro”

  1. marina ávila disse:

    Laura
    adorei. maravilhoso
    parabéns.
    bjs
    marina ávila

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